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Álcool: festas, escolas e conversa na família

Álcool: festas, escolas e conversa na família

 

O médico pediatra Daniel Becker, autor da página Pediatria Integral, conversou sobre o impacto da publicidade de cerveja sobre crianças e adolescentes e da importância do papel da escola e da família neste processo. E a gente pergunta: enquanto a proibição da publicidade na TV e nos eventos não chega, a contraposição à imagem e ao conceito de felicidade da  publicidade de cerveja é responsabilidade de quem? Como a sociedade vem protegendo a infância dos apelos para o consumo de álcool, sobretudo da cerveja que está em todas as mídias?

 

As crianças crescem com uma imagem muito positiva do consumo de cerveja, pois os comerciais mostram pessoas felizes, bonitas e de bem com a vida. Como as escolas poderiam ajudar a mudar essa ideia? E os profissionais de saúde e suas organizações representativas poderiam ajudar?

Acho que seria super importante o engajamento das escolas nesse trabalho para combater a publicidade desenfreada do álcool e a mensagem positiva que o comercial passa. As questões do alcoolismo e da embriaguez e da associação de álcool e direção, assim como as de outras drogas, deveriam ser discutidas no Ensino Fundamental e Médio. As crianças são mais vulneráveis à mensagem publicitária e discutir isso no ambiente escolar, de forma franca e aberta, seria maravilhoso. Mas a escola, especialmente no Ensino Médio, está muito ocupada em ensinar a diferença do estômago dos helmintos e dos platelmintos para que o aluno passe no Enem. As discussões sobre a vida lá fora, tão rica e tão complexa, não têm tanto lugar – por isso temas como álcool, sexo e intimidade, vida profissional, habilidades para a vida não são discutidos em geral. Infelizmente é assim na nossa realidade escolar e eu lamento profundamente. Um das coisas que mais me entristecem nesse país é o tipo de educação que as crianças recebem, principalmente no Ensino Médio. Com relação aos profissionais de saúde, no caso os médicos, eles deveriam estar se manifestando pois são eles que lidam com o coma alcoólico, com os acidentes e seus resultados, eles que lidam com a violência associada ao álcool, mas, infelizmente, as classes e as corporações médicas não estão muito envolvidas nesse trabalho. A Pediatria, especialmente, deveria estar profundamente engajada no tema, pois cuida de adolescentes, mas ele é muito pouco abordado mesmo entre pediatras.

É no ambiente das festas de colégios que começa a iniciação precoce e descontrolada do consumo de álcool?

As festas que são comuns no Ensino Médio são umas das formas mais perversas e cruéis da disseminação do consumo do álcool e da apologia à embriaguez e do alcoolismo entre adolescentes. Estas empresas que organizam as festas atuam por todo o Brasil. Aqui no Rio de Janeiro, há uma empresa que tem praticamente o monopólio do circuito de festas nas escolas. Eles se infiltram nas escolas, constrangendo alunos a participarem, impondo preços altíssimos (e portanto excludentes), cheios de truques para que cada jovem deseje ardentemente estar na festa. Eles fazem festas intermediárias, os chamados calangos, churrascos, onde o álcool é livre para qualquer adolescente, não importa a idade. Quando chega na hora da festa de formatura o álcool é mais livre ainda. Os pais que se contrapõem são constrangidos pelos próprios filhos a aceitarem que eles participem. E se essas empresas se infiltram nas turmas é porque algumas escolas possivelmente são coniventes. Afinal, elas obtêm acesso às listas de alunos, aos endereços e telefones. Imagino que haja no mínimo omissão da escola para que isso aconteça.

O que dizem as empresas promotoras das festas sobre o álcool?

As empresas estão fazendo festas já no segundo ano do Ensino Médio e sabem que convites são oferecidos para meninos do primeiro ano. Portanto, adolescentes de 15 anos estão bebendo livremente nas festas. Isso é crime tipificado pela legislação brasileira, e por mim os organizadores deveriam ser processados e presos. A alegação – hipócrita – das empresas é que elas não distribuem álcool para menores e que só os maiores de idade, que têm uma pulseirinha de identificação, recebem bebidas. Isso é sabidamente uma mentira e todos os adolescentes que vão às festas relatam que o consumo é livre para todos. A base do sucesso da empresa é a promessa de oferta fácil de álcool, além da ostentação, luxo e a fugaz sensação de ser uma celebridade.

Não há duvidas de que os adolescentes têm direito de comemorar sua formatura com alegria, e muitos dirão, com direito a uma bebida. Mas fazer a disseminação de valores como esses, e estimular o consumo de álcool a tal ponto que é necessário uma ambulância na porta para garantir que os adolescentes em coma alcoólico sejam bem atendidos… aliás, a ambulância é devidamente exibida nos folhetos, mostrando claramente que o “porre” será livre.  O que estão fazendo é a apologia da embriaguez. De novo: caso de polícia.

Na sua opinião, o que falta para efetivar a proteção da infância e da adolescência aos apelos do consumo do álcool?

A proteção da infância vai ser efetivada quando a gente tiver discutido tudo isso e tiver colocando na mesa medidas que controlem a publicidade, controlem as festas com álcool para menores de idade. Quando tivermos campanhas educativas que eduquem sobre os perigos do consumo excessivo, quando as escolas discutirem o álcool e outras drogas, quando as associações profissionais estiverem engajadas num conjunto de ações que esse assunto merece. Seria importante também uma discussão com a mídia de entretenimento no sentido de talvez começar a fazer com o consumo inadequado do álcool (e de sua associação com o volante) a mesma coisa que ela fez com o tabagismo – e talvez fosse a medida mais eficaz de proteção.

Como as famílias podem falar sobre o tema (álcool e outras drogas) com seus filhos?

Acho que as famílias são um espaço fundamental dessa discussão. Qualquer questão de comportamento, com o adolescente, só pode ser abordada com verdade, clareza e franqueza. O envolvimento com o álcool é inevitável em nossa sociedade, mas pode acontecer de forma segura e saudável. Para que isso ocorra da melhor forma possível, isso deve ser discutido de forma aberta e respeitosa, preservando a privacidade do adolescente – da mesma forma que outros temas, como o da sexualidade. É preciso conversar sobre os riscos, os efeitos, os problemas que o exagero pode acarretar do ponto de vista social, físico, psíquico. É preciso falar sobre comportamento nas festas, no transporte, sobre aprender a resistir à oferta exagerada e ao excesso, sobre não adotar comportamento de rebanho quando o grupo está fazendo algo inadequado, perigoso, ou desrespeitoso. Portanto, fortalecer a resiliência do jovem e discutir com muita verdade, carinho e respeito à privacidade e às suas escolhas. Acho que devemos tratar esse tema com firmeza, colocando limites na medida do possível e de acordo com a cultura de cada família, e principalmente deixando a porta aberta para uma conversa franca e acolhedora.

Leia também:

Entrevista com Daniel Becker – Um bate-papo sobre publicidade, infância e valores

Entrevista com Daniel Becker – Publicidade de cerveja tem adolescente como alvo

Jornalista: Desirée Ruas/Rede Brasileira Infância e Consumo

 

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Saiba mais sobre o colaborador Daniel Becker

Pediatra formado e com residência pela UFRJ e mestrado em Saúde Pública pela FIOCRUZ. Foi pediatra de Médicos sem Fronteiras na Tailândia, e um dos criadores do Programa de Saúde da Família. Fundou e trabalhou por mais de 20 anos no Centro de Promoção da Saúde (CEDAPS), ONG que é referência em saúde de comunidades populares. Dá aulas na UFRJ, foi colaborador do UNICEF e da OMS, é palestrante, escritor e consultor de fundações e empresas. É pioneiro da Pediatria Integral: uma prática que amplia o olhar e o cuidado para promover o desenvolvimento pleno e o bem-estar da criança e da família. Escreve no site Pediatria Integral e na página do FB com o mesmo nome.

 

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